Entendendo a Dor no ombro
A dor no ombro é uma condição prevalente que pode afetar significativamente a qualidade de vida e a capacidade de realizar atividades físicas. Após a dor lombar e a dor no joelho, a dor no ombro é estimada como a terceira apresentação musculoesquelética mais comum nos cuidados primários em saúde.
Esta dor pode limitar a mobilidade e a funcionalidade do membro superior, resultando em dificuldades para realizar tarefas diárias, como vestir-se, carregar objetos e até mesmo dormir. Além disso, os quadros de dor crônica podem levar a problemas psicológicos, como ansiedade e depressão, devido à frustração e à limitação das atividades rotineiras.
E ela também pode ser um fator desmotivador significativo, levando à interrupção da prática de atividades físicas. Orientações adequadas sobre como adaptar o treinamento podem ajudar os alunos a manterem-se ativos, promovendo a continuidade e a adesão ao programa de exercícios, o que é essencial para a saúde geral e o bem estar.
Causas e alertas para os treinos
A dor no ombro pode ser causada por uma variedade de condições, relacionadas diretamente à alguma lesão/trauma ou às dores atraumáticas, como: síndrome do impacto subacromial, distúrbios do manguito rotador, osteoartrite, dentre outras.
Diante da dificuldade de diagnosticar com precisão a dor no ombro apenas pela patologia, há um debate na literatura científica sobre a necessidade de mudar a abordagem, principalmente no contexto de tratamento conservador.
Na fisioterapia, isso significa concentrar nas deficiências de movimento, já que não é aconselhável alterar a estrutura óssea do ombro, como por exemplo a forma do acrômio.
Entender as causas comuns de dor no ombro é um diferencial para profissionais de Educação Física. O objetivo deste entendimento não é realizar tratamentos que estão fora do nosso escopo de atuação. Mas sim, fazer uma melhor avaliação, comunicação com os alunos e adaptação dos programas de treinamento físico durante os tratamentos médicos e fisioterapêuticos.
A identificação precoce dos sintomas e a modificação da estrutura do treinamento podem prevenir o agravamento de dores, lesões e auxiliar numa recuperação eficaz.
E aqui vai um ponto importante que eu sempre reforço: ignorar a dor e insistir no exercício é um risco desnecessário.
Nosso papel é adaptar o treino, não excluir o movimento. É ajustar a execução, o ângulo, a carga semanal, a ordem e quantidade dos exercícios para que o aluno continue evoluindo, mas de maneira segura e funcional.
Como adaptar o treino em casos de dor no ombro
Quando o aluno chega com queixas de dor no ombro, a primeira recomendação é observar com atenção, não apenas o que ele sente, mas como estão distribuídas as atividades físicas como um todo.
Por isso, a avaliação física detalhada é indispensável e vai muito além de medir força e amplitude. Eu gosto de observar a postura, o controle escapular, o padrão de movimento do braço em diferentes planos e respostas dolorosas em determinadas posições.
E falando nisso, colha informações sobre o estado de saúde, experiências prévias com exercício, histórico de dor, cirurgias e outras queixas. Às vezes, o problema está na rotina, como excesso de volume, pouco descanso, ou técnica incorreta dos movimentos.
E, claro, caso haja qualquer sinal (como dor noturna intensa, perda de força repentina ou limitação acentuada), deve haver o encaminhamento médico ou fisioterapêutico antes de seguir com o treino.
Depois de liberado, eu costumo trabalhar com 3 pilares fundamentais para adaptar o programa de forma segura e eficiente:
1. Individualização
Cada programa de exercício físico deve ser adaptado às necessidades e limitações específicas do indivíduo, levando em consideração o tipo de dor, o nível de aptidão física e os objetivos pessoais.
Exemplo: para pessoas que praticam esporte, é importante a inclusão de exercícios em diferentes planos para maior variabilidade de movimentos.
2. Progressão gradual
Iniciar com baixo volume/intensidade e aumentar gradualmente a carga e a complexidade, conforme a tolerância e a recuperação do aluno ao longo das semanas de treinos.
Para monitorar as respostas à dosagem das sessões de treinamento físico, pode-se utilizar a Escala Visual Analógica de Dor (EVA), a Escala de Percepção Subjetiva de Esforço (PSE) e outras.
Além disso, para progressão dos treinos, é interessante que o aluno esteja sem dor, ou com dor leve a moderada (dor ≤ 4/10) durante os treinos e sem ou baixa dor noturna.
A escápula é o “chão” sobre o qual o ombro se move — se ela não estiver funcionando bem, qualquer trabalho de força no manguito rotador perde eficiência. Por isso, dedico parte do treino aos músculos estabilizadores, como o trapézio inferior, o serrátil anterior e os rombóides nos primeiros mesociclos.
Inclua exercícios que promovam tanto o aumento da força quanto da flexibilidade dos músculos do ombro e da cintura escapular para melhor amplitude de movimento não só nos treinos, mas também nas atividades diárias.
3. Monitoramento dos treinos
O seu aluno(a) pode ter dor leve a moderada no treinamento mas é importante ensiná-lo(a) a diferenciar entre desconforto muscular normal e dor prejudicial.
Monitore com a dor, a fadiga, o estresse e o sono.
A importância da amplitude de movimento e do controle motor
O aluno com dor precisa reaprender a mover o ombro de maneira harmônica. Isso exige boa movimentação da torácica e coordenação entre escápula e úmero.
Exercícios como mobilização torácica com rolo de espuma, aumento da amplitude de movimento dos peitorais e ativação do serrátil anterior podem ajudar a restaurar essa sinergia.
Erros comuns na prescrição
Alguns erros recorrentes que agravam a dor no ombro:
- Prescrever exercícios de empurrar (como supino) sem compensar com os de puxar;
- Aumentar a carga sem qualidade de movimento;
- Negligenciar o aquecimento específico;
- Corrigir apenas o exercício e não olhar para outros fatores que influenciam a dor;
Retorno à alta performance
Profissionais devem utilizar ferramentas de avaliação de resultados reportadas pelos próprios pacientes (“patient-rated outcome tools”) que sejam confiáveis, válidas e responsivas.
Essas ferramentas devem abordar aspectos como dor, incapacidade, fatores psicossociais (que influenciam a recuperação e a prontidão psicológica) e a própria prontidão percebida pelo atleta para retornar ao esporte.
Além disso, devem ser empregadas medidas de desempenho funcional.
O propósito de usar esses instrumentos e medidas é guiar o processo contínuo de retorno ao esporte e determinar os prazos para que o atleta possa retornar às suas atividades de forma segura!
Atuação transdisciplinar: a chave do sucesso
Nós, profissionais de educação física, somos elos essenciais no processo de reabilitação funcional. Nosso trabalho ganha muito mais força quando está integrado ao de fisioterapeutas, médicos e outros profissionais da saúde.
Trabalhar em conjunto com esses profissionais garante que o aluno mantenha o movimento com eficiência e sem risco de agravamento.
Conclusão
Esse assunto é só o começo.
Existem inúmeras estratégias que podemos aplicar para manter o aluno em movimento, mesmo diante de limitações articulares. Quanto mais entendemos sobre biomecânica do ombro, controle escapular, tipos de dor e progressão segura, mais preparados ficamos para entregar resultados reais e sustentáveis.
Por isso, quero te convidar a ir além. Se você deseja se aprofundar nesse assunto e dominar a prescrição de exercícios para quem convive com condições musculoesqueléticas, conheça a Mentoria “De Olho no Movimento”.
Ela foi criada especialmente para profissionais de educação física que, assim como nós, acreditam que o conhecimento técnico é o que garante segurança, confiança e autonomia no atendimento.
